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domingo, 6 de janeiro de 2013

Entrevista: Desire

Considerados um dos grupos mais únicos saídos do panorama metálico nacional, os Desire regressaram aos palcos para duas datas especiais em celebração dos seus 20 anos de carreira. No fim do concerto do Porto, conversámos com Tear e Flame sobre o passado, presente e futuro da banda.

Depois de duas datas de celebração dos 20 anos de Desire, qual é o balanço que fazem deste retorno aos palcos?
Tear: Um balanço extremamente satisfatório, porque foram duas grandes noites. Duas noites únicas, tal como prevíamos e esperávamos. Penso que, da nossa parte, conseguimos proporcionar isso da melhor forma a todos os que compareceram nos concertos. Da nossa parte foi algo mesmo de muito, muito especial. Espero que também o tenha sido para quem esteve presente nestas duas datas, porque, para nós, foram os concertos mais especiais que demos em toda a nossa carreira. 20 anos de uma banda de metal em Portugal não é fácil… não é mesmo nada fácil, ainda para mais num estilo um tanto ou quanto mal tratado em Portugal.

Há uns meses atrás, entrevistei o John Paradiso, dos Evoken. Perguntei-lhe quando vinham a Portugal e ele respondeu que gostaria muito de regressar e, acima de tudo, voltar a ter a oportunidade de tocar com os Desire. O que sentem perante estas palavras?
Tear: Em 2003, quando tivemos a oportunidade de fazer uma digressão com os Evoken e os Officium Triste, eles (os Evoken) confidenciaram-nos que, desde que ouviram o “Infinity…”, o nosso primeiro trabalho, nos tornámos uma banda de referência para eles e uma forte inspiração no som que fazem. Obviamente que, na altura, isso nos deixou bastante satisfeitos e orgulhos. Foi extremamente gratificante saber que uma banda dos E.U.A., que vagueia pelos mesmos meandros musicais que os Desire, nos tinha como referência. Também ansiamos pelo dia em que eles regressem para voltarmos a estar juntos em palco. Não só com eles, mas também recordar os tempos com os Officium Triste. Toda essa digressão foi extremamente positiva e gratificante…
Flame: Houve um grande espírito de camaradagem e as recordações que temos são as melhores. Parece que os Evoken têm a mesma opinião e, por isso, seria muito bom partilhar um palco ou uma tournée com essas duas bandas.

Qual é o balanço que fazem destes 20 anos?
Tear: Tivemos alguns momentos complicados. Talvez tenham sido mais os momentos complicados do que os momentos bons. Foram 20 anos difíceis, muito atribulados, com várias entradas e saídas de membros, problemas pessoais à mistura… Felizmente, ao fim destes anos todos, conseguimos o mais importante, que foi manter a personalidade e a identidade da banda. Penso que isso se conseguiu muito graças ao facto de a espinha dorsal da banda se ter mantido junta ao longo deste tempo todo. Refiro-me a mim próprio, ao Flame e ao Mist, que somos os três elementos que permanecem desde o início. Todos os outros, infelizmente, foram saindo e foram entrando. Isso deveu-se a problemas pessoais, a incompatibilidades entre a vida pessoal e a vida da banda… Nos Desire, desde o início que sempre tivemos esta mentalidade e filosofia: as pessoas não integram a banda simplesmente pela sua capacidade técnica, mas essencialmente pelo seu espírito, feeling, entrega e pela forma como se identificam e reconhecem no som da banda. Como costumo dizer, Desire não é uma banda vulgar, não é uma banda feita de factos e detalhes triviais, mas sim uma banda especial. Pode não ser uma banda grande, mas é de certeza, e eu tenho essa convicção, que é uma grande banda.


Lembro-me de falar com o Hrödulf, dos Azagatel, e ele dizer que a mudança constante de membros é uma das piores coisas que pode acontecer a uma banda, porque torna as coisas muito complicadas ao teres que estar constantemente a lidar com pessoas diferentes. E a única forma de contornar esse problema era através de muita perseverança e um amor genuíno. Este parece ser um problema da cena nacional. Concordam?
Flame: Quando as pessoas abraçam um projeto, tem mesmo que ser de corpo e alma. Não pode ser abraçado como um passatempo ou como um hobbie. Todos nós passámos por uma idade onde era "cool" ter uma banda e, muitas vezes, essas mudanças de formação acabam por se refletir, porque as pessoas passado algum tempo começam a ver que não têm andamento para isto, que não é isto que realmente querem fazer das suas vidas e acabam por sobrepor outros interesses aos da banda. Isso resulta na constante troca de membros. É muito difícil encontrar pessoas que estejam todas vocacionadas para o mesmo estilo, principalmente no nosso caso, que temos um som muito específico. É fácil encontrar guitarristas e bateristas de Thrash Metal. É conforme as “ondas” do metal, em geral.

Consideram que estas alterações na formação contribuíram para que os Desire tenham lançado apenas quatro trabalhos em 20 anos de carreira?
Tear: Sem dúvida. Se recuarmos no tempo, obviamente que hoje em dia falta um ou outro elemento e, mesmo assim, consegues fazer as coisas. Até a própria gravação de um disco se tornou muito mais fácil com a chegada da era digital. Na altura, e estamos a falar desde 1992, quando ainda se trocavam cassetes e a Internet ainda não era utilizada de forma massiva, tudo era mais rudimentar, mais caseiro, mais arcaico. Tudo era mais…
Flame: Por um lado, mais genuíno e mais verdadeiro até.
Tear: Hoje em dia, talvez a ausência de um membro já seja não tão preponderante para que a banda não possa avançar com a gravação do disco. Quando falo nisto, também quero dizer que antigamente, quando faltava um membro, isso trazia não só consequências nível de formação, mas também a nível monetário. Todos nós fazíamos contas para fazer a gravação e faltar uma pessoa já era um arrombo enorme nas finanças de uma banda. Atualmente, isso já não tem um impacto tão grande e a verdade é que estes 20 anos nos deram um know-how, uma confiança e uma capacidade maiores para fazer coisas que não conseguimos anteriormente.

O vosso último trabalho foi editado em 2009. Sei que já começaram a trabalhar em material novo. Para quando um novo disco dos Desire?
Tear: Estamos a fazer todos os possíveis para que consigamos, no máximo, em Março do próximo ano começar a gravar o novo disco para que seja editado no Outono de 2013. Para nós, seria interessante conseguir fazê-lo mais cedo, mas não queremos estar a criar falsas expetativas, nem estar a defraudar as próprias expetativas das pessoas. Vamos participar no próximo ano, em Maio, no dia 11, num festival na Holanda. Vamos querer aproveitar a oportunidade para fazer outras datas, como fizemos em 2003. Seria bastante proveitoso para nós se já levássemos um novo disco na bagagem, mas estamos a ver que essa meta poderá ser algo complicada de atingir. Daí sermos um bocado realistas, sempre o fomos, e as pessoas perceberem essa parte do porquê de não editarmos trabalhos de forma mais regular. Sempre fomos pessoas muito responsáveis e ponderadas. Sempre pensámos nas coisas com o máximo de concentração e com a certeza absoluta que estávamos a fazer exatamente aquilo que queríamos fazer.
Flame: Tem que ser um digno sucessor, senão não vale a pena.
Tear: Levamos bastante tempo a compor, não porque tenhamos dificuldade em criar novas músicas, mas porque nem sempre nos conseguimos rever nessas músicas, nem exprimir na plenitude tudo o que queremos transmitir. Damos imensas voltas nas coisas para que elas fiquem exatamente como queremos.
Flame: Algo que resume o que o Tear está a dizer é que, acima de tudo, somos nós os nossos maiores críticos. Nem tudo aquilo que sai na sala de ensaios é visto como terminado Só avançamos quando estamos realmente satisfeitos. Relativamente ao próximo trabalho, neste momento temos cerca de 70% do material pronto. Os restantes 30% são aqueles pormenores que precisamos para ficar completamente satisfeitos.


Notou-se que deram muita atenção ao “Infinity…” nesta celebração. É um álbum muito especial não só por ser marcante para a cena portuguesa, mas também por ser visto como uma peça de coleção em todo o mundo. Como é para vocês ter um trabalho como este na vossa discografia?
Tear: Penso que o “Infinity…” acabou por conquistar aquilo que lhe era naturalmente devido, porque foi o primeiro disco de Doom Metal em Portugal. Fomos pioneiro e penso que foi uma viragem no Metal em Portugal. Daí que nos primeiros tempos não tenha sido muito bem aceite, mas também sabíamos que seria difícil digerir. Porém, tínhamos a convicção que, quando as pessoas percebessem exatamente o que os Desire queriam transmitir, se iria tornar numa referência para os ouvintes, assim como para muitas bandas que viessem a surgir depois. Foi um disco que nos marcou imenso, éramos muito jovens na altura. Estávamos cheios de energia e ideias. Não quisemos partilhar o disco com ninguém, ou seja, não quisemos envolver ninguém na sua composição e elaboração. Foi um trabalho bastante ambicioso e puro. Todos os trabalhos de Desire têm um significado muito especial, porque todos eles marcam uma fase das nossas vidas, dos nossos sentimentos e das nossas intenções. Hoje estamos a falar do “Infinity…” e, sinceramente, acredito que, com o passar dos anos, o “Pentacrow” e o “Locus Horrendus” também vão conquistar o seu lugar. Pessoalmente, penso que o “Locus Horrendus” é o disco que traduz de melhor forma a verdadeira essência e identidade dos Desire. É a pérola negra da banda, porque é o disco mais sinistro, mórbido, sentido, profundo e introspetivo de sempre. Está ligado a emoções muito fortes.

Há planos para uma reedição do “Infinity…”?
Tear: Há planos para uma reedição tanto do “Infinity…”, como do “Pentacrow” e do “Locus Horrendus”.

Falou-se inicialmente de uma box set…
Tear: Sim, a “The Trilogy of Melancholy”. Posso adiantar que isso ainda não foi feito por duas grandes razões. Uma, que é a mais importante de todas, por ainda estarmos a resolver pequenas questões com a Skyfall Records, a editora que lançou o “Infinity…” e o “Pentacrow”. A outra é o facto de querermos terminar, e isto é uma convicção e desejo pessoal, o conceito que iniciámos no “Infinity…”, que é, no fundo, transversal a todos os trabalhos dos Desire. Há três grandes trabalhos que marcam esse conceito, que são o “Infinity…”, o “Locus Horrendus” e a terceira parte que ainda está para sair, ou seja, o próximo álbum. Aí, sim, penso que será a altura ideal para lançar a “The Trilogy of Melancholy” com esses três discos, deixando os dois EPs de lado. E, como já devem ter reparado, há outra característica especial na banda que faço questão de manter. Todos os discos de Desire têm um subtítulo comprido e procuramos sempre fazer trocadilhos nos títulos dos EPs com aquilo que mais nos marca e simboliza, ou seja, a figura do corvo. Tanto o “Pentacrow” como o “Crowcifix” são muito focados na figura do corvo, porque são trabalhos mais exclusivos, mais focados nos fãs e não tanto no público em geral. Daí até termos editado o “Crowcifix” em vinil, porque, ao longo dos anos, fomos recebendo vários incentivos para que isso acontecesse. Isso para nós fez todo o sentido, porque pertencemos ao underground e nunca tínhamos editado um vinil. Teve que ser em ’12, porque não cabia noutro formato. (risos) Às vezes, as pessoas pensam que escrevemos temas longos de propósito, mas não é verdade. Isso acontece, porque…
Flame: Não conseguimos transmitir certos estados de espírito e ambiências em apenas cinco ou dez minutos.

Já que falam nisso, voltemos a falar sobre o concerto. É incrível como os Desire conseguem transformar um concerto de 1h45 em algo que parece tão curto. Para isso contribui a forma como vocês deixam as vossas músicas respirar.
Flame: Tocámos 1h45 e ainda nos disseram que soube a pouco.
Tear: Sim, é isso mesmo que estás a dizer e isso reflete-se na música.
Flame: E ainda bem que as pessoas reconhecem isso, que não se torna maçador pelas música serem grandes e por haver vários estados de espírito e ambiências…
Tear: Por acaso, esse foi um dos nossos grandes receios quando estávamos a preparar estes concertos. Ficámos com o receio de ser um alinhamento demasiado longo e maçador. Pensámos até em reduzi-lo quando estávamos na sala de ensaios. Daí termos feito o encore, para ver se  as pessoas tinham realmente vontade de ouvir mais. Confesso que, nestes dois concertos, saímos sempre do palco com a certeza de que as pessoas queriam que voltássemos. É óbvio que isso nos deixa extremamente satisfeitos e é algo muito gratificante. Estas são, sem dúvida, duas noites que ficarão nas nossas memórias e espero que também fiquem na memória de todos os que estiveram presentes nestes dois concertos. Foram especiais e únicos, tal como esperámos. Há imenso tempo que não tocávamos um alinhamento tão longo…
Flame: E em nome próprio.
Tear: É uma pena que não tenham comparecido mais pessoas, mas, mesmo assim, penso que o balanço é extremamente positivo. São conquistas que se fazem passo a passo.
Flame: Só fez falta quem cá esteve, como se costuma dizer. Quem queria estar, esteve num dos espetáculos e só perdeu quem não esteve.
Tear: Fiquei feliz pelo carinho que tivemos das pessoas no final dos concertos e por tudo o que nos transmitiram. Tudo isto, parecendo que não, vai-nos alimentando a alma e o ego. Não no sentido de acharmos que somos bons, mas para nos dar forças para continuar…
Flame: E nos fazer sentir que estes 20 anos têm valido a pena. Nunca imaginámos que ainda estaríamos no ativo passado tanto tempo, especialmente em Portugal. Já muitas pessoas nos disseram que o nosso azar foi os Desire terem nascido em Portugal e que, se tivesse sido noutro país, talvez tivéssemos mais reconhecimento. Nós reconhecemos isso, achamos que isso seja possível, mas temos dado sempre o nosso melhor.
Tear: Fica um amargo na boca por não termos feito mais e chegado mais além…
Flame: Ainda não é tarde.


Pelo menos, sentem-se realizados com o que fizeram até agora. Muitas bandas não o podem dizer.
Flame: Sem dúvida, principalmente por nunca termos feito nada forçado e que soasse falso. O que já saiu é algo que vem de dentro. Ouvimos constantemente pessoas a perguntarem o porquê de demorarmos tanto tempo a lançar um álbum, mas ele só sai quando achamos que deve sair. Com todas as dificuldades que tivemos, podíamos ter optado por encerrar atividades, mas sempre acreditámos com a mesma crença que tínhamos há 20 anos quando formámos a banda.
Tear: Só queria referir algo que penso não ser muito comum em Portugal, infelizmente. Nestes dois concertos fomos acarinhados e abraçados com a presença de várias pessoas que vieram de propósito do estrangeiro para estarem presentes nesta celebração dos 20 anos de Desire. Pessoal da Alemanha, Rússia, França, Inglaterra... Fazer isto com uma banda portuguesa que, no nosso caso não tem muita exposição ou promoção internacional, espelha o que os Desire conseguiram ao longo destes anos. Não só fazer parte da vida de muitas pessoas em Portugal, como também no estrangeiro. Recebemos constantemente incentivos e convites de muitas pessoas lá fora para que levemos a música dos Desire aos palcos espalhados pelo mundo. Infelizmente, como é do conhecimento geral, não é fácil concretizar essas coisas, mas sentimos que temos fãs espalhados por todo o mundo. Faltam-nos as infraestruturas e o apoio para podermos chegar mais além. Gostávamos de correr o mundo e proporcionar a essas pessoas a hipótese de assistirem a um concerto nosso, até porque foi por causa dos nossos fãs que não desistimos. Ainda temos muito para dar e para contar em termos de conceito lírico. Penso que é uma história interessante e faço votos para que, um dia, talvez quando a banda terminar, todo este trabalho seja aproveitado para um argumento de filme. A banda-sonora já está feita, só falta mesmo retratar tudo isto em imagem. Penso que resultaria em algo profundo e muito bonito, por isso fica a deixa.

Para terminar, tinham planeado gravar estes dois concertos e vi algumas câmaras na sala…
Tear: Houve pessoas que se ofereceram para fazer a captação de vídeo.
Flame: Mas nada oficial.
Tear: O objetivo era fazê-lo de forma profissional, com várias câmaras e ângulos, para depois podermos fazer uma mistura. Fazer também uma captação de som profissional, porque a intenção era lançar em 2013 um DVD alusivo a estes 20 anos. Não foi possível, mas esse sonho não fica enterrado. Hoje foram estes concertos e, se calhar, daqui a uns anos teremos melhores condições e talvez aí já seja possível tornar esta ideia uma realidade. É algo que se impõe a uma banda como Desire e as pessoas merecem isso. Seria bom poder estar em casa, num momento introspetivo, e sentir um concerto nosso.

Entrevista realizada em colaboração com o Tiago Moreira para a Infektion Magazine.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Entrevista: Disaffected

Novamente reunidos desde 2006, os Disaffected lançaram em Maio deste ano o seu segundo trabalho de estúdio, "Rebirth". O baixista António Gião falou com o THMS sobre o novo álbum e as experiências vividas pela banda desde o seu renascimento.
Comecemos por uma questão que já devem estar fartos de responder. Como se deu esta reunião dos Disaffected?
Nunca é demais lembrarmo-nos de como tudo recomeçou! Após ter começado a recuperar do seu acidente de mota que o deixou em coma e às portas da morte, o Sérgio (guitarrista) contactou os restantes membros da formação do “Vast” para sondar as suas disponibilidades para recuperar os Disaffected. Nem todos estando dispostos a voltar com a banda, foi necessário procurar novos elementos e lentamente começar a tocar os temas do disco. Concluído esse processo, e após uma série de concertos muito bem-sucedidos, começámos a pensar em gravar os temas que entretanto também tínhamos começado a compor. Daí rapidamente passámos à ideia de gravar um álbum. E assim foi nascendo o “Rebirth”.

Foi difícil recuperar a química perdida ao longo destes anos de separação? Sentem que têm hoje uma relação diferente da que tinham nos anos 90?
O início foi complicado. Havia elementos novos na banda e os que transitaram desde os tempos do “Vast” há mais de 10 anos que não tocavam juntos. Foi necessário recuperar a tal química e ter paciência para que com o tempo tudo estivesse devidamente oleado. No final acabámos por conseguir uma relação mais madura, mais confiante e mais sólida do que a que existia nos anos 90. Levou o seu tempo, mas valeu a pena!

O "Vast" é visto como um trabalho marcante no underground nacional. Sentiram pressão na hora de compor o seu sucessor?
Obrigado! Sabemos que o “Vast” tem de facto um lugar bastante especial na “cena” nacional. Assim sendo, é natural que sentíssemos bastante pressão na hora de projectar o seu sucessor. Estávamos cientes de que os fãs do “Vast” e a crítica em geral iriam ser muito exigentes para com o nosso novo trabalho. No entanto, mais que quaisquer outras pessoas, nós próprios sentimos a obrigação de não defraudar o nome, a imagem e a recordação que “Disaffected” tinha em nós. Se era para voltar, era para voltar com um trabalho nunca inferior ao “Vast”. Ou era igualmente bom, ou superior, ou então não valia a pena estarmos a voltar passados tantos anos.

Ouvindo os vossos dois álbuns, nota-se perfeitamente uma ligação entre ambos. Contudo, existem algumas diferenças. As canções do “Rebirth” são, por exemplo, consideravelmente mais longas que as do “Vast”. Que outras diferenças encontram entre eles?
É verdade. Existe uma continuidade de um álbum para o outro, nomeadamente em termos das estruturas, sonoridades e complexidades das músicas, mas também alguma evolução e novidade de um para o outro. Os temas do “Rebirth” aproveitam o estilo progressivo que tínhamos criado no “Vast”, mas elevam-no a outros patamares – daí as músicas serem substancialmente mais longas. A opção mais fácil teria sido simplesmente emular o “Vast”, mas assim continuaríamos presos ao passado. Quisemos acrescentar mais qualquer coisa com mais apontamentos de percussão tribais, mais variedade de vozes (nomeadamente femininas) e mais linhas de guitarra e de baixo ainda mais complexas. Há muito mais variedade no “Rebirth”, o que também acaba por torná-lo um trabalho ainda mais difícil de entender que o “Vast”. Se o “Vast” já levava algum tempo a revelar-se ao ouvinte, o “Rebirth” requer uma dose de paciência ainda maior. Ao final, porém, a sua experiência é ainda mais rica.


Qual é o conteúdo lírico do “Rebirth”?
As letras do “Rebirth” fazem um relato metafórico do longo caminho que os Disaffected tiveram de percorrer desde a sua ruptura em meados da década de 90 até aos dias de hoje. O álbum é conceptual e está dividido em duas partes distintas. Começa no fim da era “Vast”, vai explorando as dificuldades ultrapassadas e acaba por desembocar na sensação de realização de termos chegado onde mais queríamos estar ao início da longa caminhada. É um pouco como a estrada da vida de qualquer um de nós. Altos e baixos, dificuldades e alegrias. Assim, embora esteja obviamente ligado ao renascimento da banda, é apropriável por qualquer pessoa que tenha renascido perante as suas maiores dificuldades.

Os Disaffected surgem agora ligados à Massacre Records. Como surgiu esta ligação e por quantos discos vai durar?
Quando concluímos o “Rebirth” enviámos uma cópia a 4 ou 5 editoras estrangeiras que pensámos que melhores condições nos poderiam oferecer. As respostas foram quase imediatas e, de todas, a da Massacre Records foi a mais vantajosa e que mais ia ao encontro das nossas expectativas. O contrato que assinámos foi apenas para o lançamento de um CD, com a opção de prorrogação por outros. Por enquanto estamos muitíssimo satisfeitos com o trabalho de promoção e de divulgação da Massacre Records. Temos conseguido chegar a ouvintes em países que só com o “músculo alemão” foi possível atingir. Vamos aguardar para ver como tudo continua a correr e depois pensar no futuro.

Já se passaram uns meses desde o lançamento do “Rebirth”. Que balanço fazem do feedback recebido e das experiências que têm vivido desde que se voltaram a reunir?
É verdade. O “Rebirth” já saiu em finais de Maio, pelo que já tivemos oportunidade de ver muitas reviews ao nosso trabalho. Felizmente, a esmagadora maioria dessas críticas têm sido muito positivas. Há sempre uma ou outra opinião menos favorável ou com menos paciência para o nosso género musical, mas de uma forma geral o “Rebirth” tem-se destacado quase sempre com notas acima de 80% - inclusivamente com alguns 100%! No entanto, mais importante ainda, temos recebido muitas mensagens de apreço por parte dos “ouvintes anónimos”, ora saudando o regresso por conhecerem o “Vast”, ora por o quererem conhecer após terem tomado contacto com Disaffected através do “Rebirth”.

Como banda, que diferenças encontram entre o underground nacional dos anos 90 e o actual?
O underground nacional está completamente diferente de há 20 anos para cá. Por um lado, há muito mais bandas portuguesas, com muito mais qualidade, do que nos anos 90. Os meios de divulgação actualmente são também muitíssimo melhores. Hoje todos temos acesso ao Youtube, ao Myspace, ao Facebook, etc. o que é espectacular em termos de projecção. Tudo factores que tornam o nosso underground mais interessante que há 20 anos atrás. Por outro lado, parece haver cada vez menos espírito familiar ou irmandade entre o pessoal da “cena”. Perdeu-se um pouco o fascínio e o orgulho com o ser/pertencer a essa mesma “cena”. Há duas décadas atrás um qualquer concerto de 3 ou 4 bandas portuguesas era q.b. para encher um pavilhão com 500 ou 600 pessoas, actualmente se essas mesmas bandas tiverem 50 ou 60 pessoas podem dar-se por satisfeitas. É certo que a crise também não está a ajudar, mas o cerne da questão até talvez nem sempre seja exclusivamente económica, mas antes de perda de algum “espírito de corpo“ – o que fazia do underground dos anos 90 mais fascinante.


Qual foi a sensação de abrir o Vagos Open Air 2012?
Espectacular! Verdadeiramente espectacular. Embora já tenhamos tido a oportunidade de tocar noutros grandes eventos como o Caos Emergente e como banda de abertura de bandas estrangeiras, a recordação deste VOA terá sempre um lugar muito especial. Embora tenhamos a noção que a qualidade da mistura do nosso som não tenha sido brilhante, ficámos muitíssimo satisfeitos com a nossa actuação. Felizmente, à excepção de uma ou outra voz (quase sempre) dissonante, a grande maioria dos comentários que tivemos foram também muito positivos.

O que andam a planear para os próximos tempos? Algum concerto agendado?
Neste momento, estamos a começar a compor. O “Rebirth” levou-nos imensos meses a compor, pelo que temos que começar o quanto antes a trabalhar no seu sucessor. Entretanto, ainda temos uns quantos concertos planeados e outros ainda em fase de negociação. Há também a possibilidade de tocar umas quantas datas no estrangeiro, mas tudo ainda por confirmar.

Há alguma coisa que queiram acrescentar antes de terminarmos?
Sim, obrigado. Queremos agradecer esta entrevista e a oportunidade de figurar no The Hanged Man´s Swansong. É uma honra. Fazemos votos que o excelente trabalho que este espaço vem proporcionando aos fãs do género se possa manter por muitos e longos anos. Até breve!

domingo, 2 de setembro de 2012

Entrevista: Process of Guilt

Desde a sua formação, em 2002, os Process of Guilt têm vindo a dar passos firmes em direcção à conquista do underground nacional e internacional com os seus discos. Com "Fæmin", o terceiro álbum dos eborenses, a servir de assunto principal, o THMS conversou com o guitarrista e vocalista Hugo Santos.


Quando começaram a compor para o novo álbum, já tinham uma ideia de como queriam que soasse ou surgiu tudo naturalmente?
Pela primeira vez no nosso percurso abordámos a composição de um novo álbum totalmente a partir do zero. Apenas tínhamos a certeza daquilo que não queríamos repetir e a vontade de seguir uma abordagem mais orgânica que ressalvasse a crueza que também ambicionávamos para este registo. O "FÆMIN" acabou, assim, por resultar de um período extenso em que houve muita experimentação e muita repetição de riffs e melodias até atingirmos aquilo que para nós constituía o “cerne” de cada tema. No fundo foi um processo em que conscientemente procurámos atingir uma maior noção de identidade e daquilo que nos define enquanto banda, músicos e fãs de música.

Como correu a gravação do "Fæmin"? Atingiram o som que pretendiam para este trabalho? 
A gravação do "FÆMIN" foi planeada de modo a atingirmos o som que, efectivamente, pretendíamos para este registo. E, agora, quase um ano depois do início da mesma, ainda continuamos plenamente satisfeitos com a forma como o disco continua a soar de cada vez que o ouvimos. A escolha relativa aos estúdios onde foram efectuadas a captação, mistura e masterização teve por base a busca de um som quase “live”, uma vez que pretendíamos que todos os instrumentos “respirassem” de forma natural de modo a favorecer o riff e o groove que ambicionámos para cada tema. E, neste ponto, a escolha do Andrew Schneider para a mistura foi decisiva. Já conhecíamos o seu trabalho através dos últimos registos de bandas como Unsane ou Rosetta e achámos que o mesmo só nos poderia beneficiar na obtenção do “punch” que desejávamos para o som final. Juntamente com a masterização, novamente, a cargo do Collin Jordan, julgo que finalmente atingimos uma equação acertada para o nosso som em estúdio.

Que novidades e diferenças pensam que este álbum traz em relação aos seus antecessores? 
É um álbum mais conciso, mais cru, mais directo, com uma variedade rítmica muito mais em sintonia com aquilo que apreciamos na música e que nos revela de forma muito mais profunda. Estes são as maiores clivagens que encontro relativamente aos trabalhos antecessores, especialmente o "Erosion" que acaba por ser o registo com o qual ainda encontramos algumas, poucas, semelhanças. O "FÆMIN" representa para nós, decisivamente um álbum de mudança e de afirmação relativamente aquilo que pretendemos através da música.


Pensam que a estabilidade da formação dos Process of Guilt é importante para a evolução da banda?
Sem dúvida, depois de todos estes anos desenvolvemos uma relação que mantemos e que funciona para todos, onde sabemos bem quais são os nossos limites e até onde ambicionamos ir. Partilhamos das mesmas ilusões e desilusões relativamente à música e, no entretanto, continuamos a desfrutar com a nossa música e com a forma como a fazemos. Continuar a fazer música enquanto Process of Guilt é um projecto e um objectivo pessoal de cada um dos membros e enquanto assim for, apenas antevejo o mesmo cenário de estabilidade.

Já se passaram uns meses desde o lançamento do "Fæmin". Como analisam o feedback recebido?
Já se passaram, de facto, alguns meses desde o lançamento do "FÆMIN". No entanto, ainda continuamos a receber de forma bastante regular esse mesmo feedback que, até agora tem sido, de longe, superior ao recebido para qualquer outro registo que tenhamos lançado no passado e na sua maioria extremamente positivo, tanto através das reacções dos media como de quem nos contacta de forma espontânea.

Desde o "Renounce" que os Process of Guilt têm vindo a conquistar a atenção do underground nacional e internacional. Por que motivo optaram por uma primeira prensagem de "Fæmin" limitada a apenas 500 cópias? Há planos para uma reedição no futuro?
A opção por apenas 500 cópias relaciona-se com alguns factores, variados, mas todos eles interligados. Em primeiro lugar, quisemos investir numa edição física que premeie quem a adquirir de forma a ter algo exclusivo (e numerado), tornando assim esse item em algo único. Noutro plano, completamente diferente, que se relaciona com toda a evolução dos formatos digitais e com o progressivo abandono do formato físico, temos a perfeita noção do número de CDs que vendemos no imediato e da capacidade de distribuição que temos dos nossos discos junto de outros países. A associação entre a Bleak Recordings e a Division Records aparece, assim, como uma forma de potenciarmos uma distribuição nacional e estrangeira do melhor modo, sendo que por agora, na parte que mais directamente nos diz respeito através da Bleak temos o disco praticamente esgotado, sendo que uma segunda edição, eventualmente até noutro formato, é algo que enquadramos para um futuro próximo.


E que tal a "Fæmin Tour"? Ficou de acordo com as vossas expectativas? Foi bom tocar os novos temas ao vivo?
Tocar os novos temas ao vivo é o corolário de toda a experiência relativa à criação e gravação do "FÆMIN". É ao vivo que os temas melhor se revelam e é nesse ambiente que nos podemos entregar totalmente à sua interpretação. Depois do período que passámos a ensaiar e a pensar em como será um determinado tema, é, de facto, ao vivo que temos a hipótese de fecharmos o ciclo. Neste contexto, é claro que para nós foi bastante positivo tocar estes novos temas ao vivo. Aliás, o "FÆMIN" representa a quase totalidade de um concerto actual de Process of Guilt. Há toda uma ambiência e particularidade que reconhecemos a estes temas que levam a que, para nós, actualmente, apenas deste modo nos faça sentido pensarmos o nosso espectáculo ao vivo. Relativamente às datas que fizemos de apresentação podemos dizer que correram, de um modo geral, bastante bem, tanto no que se refere ao que sentimos relativamente à nossa prestação como no que respeita ao feedback do público.

Quais são os planos dos Process of Guilt para o futuro? Há planos para algumas datas no estrangeiro?
De momento estamos a preparar a algumas datas pela Europa para o final de Outubro. Ambicionávamos fazer algo de forma mais extensa, mas, efectivamente, a geografia particular do nosso país continua a ser um obstáculo muitas vezes difícil de ultrapassar, ainda para mais atendendo à crise que atinge toda a Europa. Em breve esperamos anunciar de forma oficial as datas até agora confirmadas.

Chegámos ao fim. Há alguma coisa que queiras acrescentar?
Obrigado pela entrevista. Se alguém se identificar com algo do que acima foi escrito passem pela nosso site (processofguilt.com) onde podem encontrar vários links paras as nossas páginas e especialmente para a nossa página do bandcamp onde podem ouvir a totalidade do nosso álbum em streaming.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Process of Guilt: Fæmin

Process of Guilt - Fæmin 
DigiSleeve limitado a 500 cópias lançado pela Bleak Recordings/Division Records (br002, dr045)

Após uma estreia e um segundo álbum muito promissores, os eborenses Process of Guilt viram-se catapultados para a primeira linha do Metal nacional. Por esse motivo, "Faemin" era aguardado com imensas expectativas. Lançado em Maio deste ano, é um disco mais conciso, tanto em duração como no número de canções, do que os seus antecessores, além de revelar uma evolução sonora para caminhos próximos do Sludge e Post-Metal de uns Neurosis, mas que ainda mantém o Doom Metal como base. São os primeiros minutos de “Empire” que nos preparam espiritualmente para uma viagem sonora que deve ser levada até ao fim. A canção inicia-se com simples acordes de guitarra envolvidos por um subtil feedback de distorção, até que lentamente começam a surgir os instrumentos e a voz grave de Hugo Santos. À medida que o ritmo hipnótico se grava no nosso subconsciente, vai-se formando uma parede sonora cada vez mais densa que atinge o seu ponto máximo no momento em que a canção finalmente arranca, revelando uns Process of Guilt mais intensos e opressivos. "Blindfold" dá seguimento a essa abordagem mais agressiva do colectivo eborense, com um riff dissonante e abrasivo que conduz o tema a um meio-tempo avassalador. "Harvest", apesar de ser a canção mais curta deste trabalho, é a mais variada e próxima do som de "Erosion", possuindo um refrão cheio de um peso pegajoso e viciante. Em "Cleanse", a abordagem agressiva é interrompida e dá lugar a uma atmosfera apocalíptica e menos sufocante, mas igualmente negra e desesperada. A encerrar o álbum, "Fæmin", a faixa-título, é a síntese desta viagem por paisagens sonoras tenebrosas. Imperdível! [9/10]

Embalagem 
A primeira prensagem de "Fæmin" vem numa DigiSleeve limitada a 500 cópias protegida por um envelope de plástico transparente.  Ao abrir a embalagem de cartão, encontramos uma abertura de cada lado, uma para o disco e outra para o livrete. Embora seja fácil de usar, este tipo de armazenamento não é tão eficaz como seria de desejar, por isso há-que ser cuidadoso no seu manuseamento. No livrete desdobrável estão impressas as letras das canções e as informações relativas à gravação deste álbum.


Conteúdo 
Esta edição não traz material extra, cingindo-se apenas às cinco canções que compõem originalmente "Fæmin".

Tracklist
01. Empire (09:52)
02. Blindfold (08:18)
03. Harvest (06:47)
04. Cleanse (07:48)
05. Fæmin (10:54)

Conclusão 
Embora esta primeira edição não possua grandes argumentos a nível de apresentação e careça de quaisquer extras, é uma compra obrigatória para qualquer fã dos Process of Guilt e quejandos. Além de ser limitada a apenas 500 cópias, é a única edição existente actualmente e "Fæmin" é um trabalho que merece ser ouvido vezes sem conta.